quinta-feira, 22 de junho de 2017

GUEDES DE CARVALHO & SENA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho (n. 1963), que regressa ao romance após um intervalo de dez anos. Sem surpresa, a prosa clara dispensa todo o tipo de malabarismos semânticos. Mesmo em sottovoce, o autor impõe uma dicção própria. Foi assim nos romances anteriores e o timbre mantém-se inalterado. Narrador autodiegético, Guedes de Carvalho intromete-se na narrativa com gozo evidente. Percebemos logo nas primeiras páginas que é de solidão e perda que o romance trata. E que o faz sem rodriguinhos, antes com uma escrita segura, elegante, atenta à prosódia da língua: «Luís Gustavo nunca a conheceu, e pela vida fora quase nem falará dela, até que um dia começará a pensar nela, quando já seria tempo de a ter esquecido, as coidas estranhas que fazemos sem lógica.» Guedes de Carvalho é muito hábil na forma como articula os factos descritos com o carácter das personagens. Ao arrepio de tanta prosa contemporânea, a sua ficção organiza-se sem ‘encenação’. Dito de outro modo, sem piscar o olho ao ar do tempo. O low profile é ilusório. Por várias vezes a narrativa deflagra em violência crua: «— Não passa de hoje vais dizer onde mora esse filho da puta...» A trama envolve sexo, bullying, imprevistos hospitalares, homossexualidade (o episódio do supermercado é deveras polissémico), violência doméstica, disfunção conjugal, morte, psicanálise, etc. Em suma, a vida como ela é. No fim, tudo conflui para o mesmo ponto, um conhecido hotel da Linha de Cascais. A sólida arquitectura romanesca dá a medida dos recursos do autor. Coisa rara na literatura portuguesa, as cenas de sexo são plausíveis e, graças à utilização correcta dos verbos, bem esgalhadas. Bem calibrado, o discurso não evita o vernáculo da oralidade. Poderá soar rude a espíritos mais sensíveis, mas nunca a linguagem comum foi decalcada de um missal. O fundamentalismo politicamente correcto vai torcer o nariz a certas passagens (a persona do autor potenciará esse condicionamento), mas a literatura não pode deixar-se capturar pela assepsia. O menos importante de tudo é o pianista do hotel. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre a publicação, em edição de bolso, de Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978). Um acontecimento. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX português, sucessivamente reeditado e esgotado desde 1979. Retrato ácido da educação sentimental dos jovens adultos de 1936, com a Guerra Civil espanhola em pano de fundo, Sena põe em pauta o Portugal salazarento e uma panóplia de interditos que vão da inscrição política à hipocrisia dos costumes. Tudo se passa no ambiente da burguesia bem instalada da Figueira da Foz, que fazia vista grossa à pesporrência do Estado Novo (actuação da Pide incluída) e a questões de natureza sexual. Alter-ego de Sena, o protagonista, Jorge, disseca com minúcia aquele peculiar microcosmo. O acento tónico incide no grau de ‘tolerância’ face à identidade sexual de alguns personagens, em particular Rufino e Rodrigues. É deveras eloquente o episódio do ménage à trois entre Jorge, Luís e uma prostituta: «a mulher não tinha tido importância, a mim é que ele, de uma maneira ou de outra, escolhera.» Destinado a ser o primeiro volume da saga romanesca Monte Cativo, projecto abortado por morte de Sena, Sinais de Fogo é uma obra-prima. Cinco estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

REI SOL


Obtendo 350 lugares, La République en Marche conseguiu a maioria absoluta na Assembleia Nacional francesa. É menos do que as projecções indicavam, mas não deixa de ser um resultado histórico. Macron torna-se uma espécie de rei Sol. Os Republicanos obtiveram 130. O Partido Socialista ficou em terceiro lugar, elegendo 33 deputados, uma derrota inquestionável, mas longe da temida pasokização. E em todo o caso com representação superior à France Insoumise, que mesmo em coligação com o PC não foi além de 27 lugares. Marine Le Pen conseguiu ser eleita, mas o Front National ficou apenas com 8 lugares. Tudo visto, é impossível ignorar o índice de abstenção, que chegou a 57,4%. Também vai ser curioso seguir o comportamento da Assembleia, onde 432 eleitos (num total de 577) são estreantes. Já agora, quatro deputados, um deles do Front National, são casados com pessoas do mesmo sexo, muito menos do que no Parlamento britânico, mas é um começo.

domingo, 18 de junho de 2017

MACRON ABSOLUTO


Com uma abstenção de 56,6%, a segunda volta das Legislativas francesas confirma a maioria absoluta do partido de Macron, La République en Marche. Ao alto, a projecção mais recente dos resultados finais. Clique para ler melhor.

A MALDIÇÃO


Estão confirmados, até ao momento, 57 mortos e 61 feridos vítimas do incêndio que deflagrou ontem ao meio-dia em Escalos Fundeiros, na região de Pedrógão Grande (Leiria). Trinta pessoas morreram carbonizadas dentro das próprias viaturas, a maioria quando tentavam fugir pela estrada que liga Castanheira de Pêra a Figueiró dos Vinhos. As aldeias de Mosteiro, Vila Facaia, Coelhal, Escalos Cimeiros, Regadas e Graça foram as mais afectadas. O número de vítimas pode subir porque continuam desaparecidas várias pessoas. Dois pelotões do exército vão juntar-se aos bombeiros na região. Clique na imagem. [Actualizado às 10:00]

sábado, 17 de junho de 2017

TRAGÉDIA DE LONDRES

Enquanto a polícia vai actualizando o número de mortos aos bochechos (ontem subiu de 17 para 30), ocultando a muito previsível existência de uma centena, ou mais, de corpos carbonizados, com o argumento da falta de identificação, «que levará meses a concluir», sucedem-se as manifestações da opinião pública contra a forma desastrada como tem estado a ser gerido o processo de apoio às vítimas da Torre Grenfell.

Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, não faz a coisa por menos: quer os desalojados instalados nas mansões vazias dos bairros elegantes da cidade. E avisou Theresa May que cinco milhões de libras são peanuts.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

HELMUT KOHL 1930-2017


Helmut Kohl, chanceler alemão durante dezasseis anos, entre 1982 e 1998, morreu hoje. A Alemanha deve-lhe a reunificação, em Outubro de 1990. Mitterrand e Thatcher eram contra. Gorbachev aceitou sem grandes reticências, até porque a Alemanha financiou a fundo perdido a saída dos exércitos soviéticos da RDA. Do outro lado do Atlântico veio o apoio decisivo de Bush pai. Em suma, como alguém disse, foi o homem que acelerou a História.

ATÉ QUE ENFIM

Após oito anos, o Ecofin retirou hoje Portugal do procedimento por défice excessivo. Ainda há palermas a gozar com Centeno?

AXIMAGE

Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã» e o Negócios:

PS 43,7% / PSD 24,6% / BE 9,7% / CDU 7,8% / CDS 4,6%.
Maioria de esquerda = 61,2%. PAF = 29,2%.

Em termos de popularidade, a sondagem é clara: 69,1% escolhem António Costa contra os 22,2 por cento que escolhem Passos Coelho. Com o PS à beira da maioria absoluta, a Direita regista os piores resultados desde 1976.

GRENFELL TOWER

Ainda a tragédia de Londres. O Governo britânico tinha em seu poder, há anos, um dossiê sobre a falta de condições de segurança da Torre Grenfell. Gavin Barwell, ministro da Habitação até ao passado dia 8, devia tê-lo na gaveta. Mr Barwell é actualmente chefe de gabinete da primeira-ministra. Não consta que se tenha deslocado ao local e, já hoje de manhã, à chegada ao n.º 10 de Downing Street, recusou falar à imprensa. A Torre Grenfell era gerida pelos serviços de habitação social da Câmara de Londres. Sadiq Khan, mayor de Londres desde Maio do ano passado, não ignorava com certeza a existência do dossiê. O mesmo se diga de Boris Johnson, actual ministro dos Negócios Estrangeiros, que foi mayor da cidade durante oito anos (2008-16). Ora estes cavalheiros não podem assobiar para o lado. Na imagem vêem-se drones a sobrevoar a Torre.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

THIEN & CUMMINGS


Hoje na Sábado escrevo sobre Não Digam Que Não Temos Nada, de Madeleine Thien (n. 1974), escritora canadense de origem sino-malaia. Trata-se de um dos romances mais aclamados dos últimos anos. O título remete para uma passagem da versão chinesa da Internacional, o hino comunista: «O velho mundo será destruído. De pé, escravos, de pé. Não digam que não temos nada.» Com a intriga focada na China que sobreviveu à Revolução Cultural, e a caução de reminiscências autobiográficas, o romance tem todos os ingredientes para ser um sucesso de público e crítica. A sucessão de prémios aí está para o provar.  A partir de Vancouver, a narradora descreve com método o ambiente de uma família de imigrantes, tendo como ponto de partida o massacre da Praça Tiananmen, em Pequim. O pai tinha fugido em 1978 e proibido de voltar à China, mas os brutais acontecimentos de Junho de 1989 levaram-no a partir para Hong Kong, onde acabou por desaparecer. Para as autoridades, ter-se-ia suicidado. É este o detonador do plot, que explica os solavancos que conduziram à China actual. Através de flashbacks recuamos às razões do percurso do pai da narradora e, por sua vez, do pai adoptivo deste, um enigmático professor de música. Mas nem só das sequelas da Revolução Cultural aqui se trata. Thien descreve muito bem as etapas de que Mao Tsé-Tung se serviu para impor a ditadura do proletariado, em especial a reforma agrária, bem como o denominado, e fracassado, Grande Salto, ou seja, a industrialização acelerada que provocaria dezenas de milhões de mortos, a maioria pela fome. Thien não faz proselitismo. A escrita, em regra neutra, tem a desenvoltura dos factos: «Fui recrutado pelo Kuomintang. Felizmente, consegui escapar-me e passar para o exército comunista. Foi pavoroso. Os combates, quero eu dizer. Mas fizemos este país.» É realmente mais fácil perceber a China contemporânea depois de ler Não Digam Que Não Temos Nada. O texto é pontuado por inúmeras remissões culturais (chinesas e ocidentais), bem como por fotos da época versada. Nem umas nem outras servem de ornamento, mas de suporte da narrativa. Notas esclarecedoras encerram o volume. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre O Quarto Enorme, de E. E. Cummings (1894-1962), nome central do Modernismo, poeta, ensaísta, dramaturgo e artista plástico, que em 1922 publicou o relato da sua prisão em França, em Setembro de 1917, no estertor da Primeira Guerra Mundial. Cummings e um amigo foram acusados de espionagem, mas o futuro poeta foi prontamente ilibado, o que não impediu três meses de cativeiro, malgrado diligências diplomáticas conduzidas pelo pai. Tudo se resumia ao espírito anti-guerra que o levou, juntamente com William Slater Brown, a servir como voluntário no corpo de ambulâncias. O episódio teve contornos bizarros, dele resultando O Quarto Enorme, título que remete para a cela comunitária partilhada com dezenas de presos no campo de concentração de La Ferté-Macé. Ilustrado com desenhos do autor, a edição portuguesa segue a versão fixada em 1978 por George Firmage, destinada a «corrigir as omissões e alterações das versões anteriormente publicadas», em especial no tocante à extravagante pontuação: ausência de espaços a seguir às vírgulas e outras diabruras. A narrativa descreve, com mordacidade e muitas vezes em tom pícaro, o quotidiano do campo, sem contemplação pelas autoridades francesas. O leitor que não conheça a poesia de Cummings tenderá a sentir-se perdido. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

LONDRES


Nos últimos tempos parece que não há nada que não aconteça em Londres. Esta madrugada (01:20) foi um incêndio de proporções dantescas que consumiu um edifício de 24 andares e 120 flats, a Torre Grenfell, na Latimer Rd, perto de Notting Hill, ou seja, na zona oeste da cidade. Quatro famílias portuguesas residiam no local. Seis mortos e 50 feridos hospitalizados, para já, números devem disparar quando forem contabilizados os corpos carbonizados. Um bebé foi atirado do 10.º andar, mas os bombeiros apanharam-no. Clique na imagem.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

OPA, BIEN SÛR


Uma boa síntese. Macron lançou, de facto, uma OPA sobre o sistema partidário francês. Clique na capa do Libé.

A ONDA


Projecção das bancadas na futura Assembleia Nacional francesa. Clique na imagem.

O EFEITO MACRON


Resultado final da 1.ª volta das Legislativas francesas. Clique na imagem.

sábado, 10 de junho de 2017

CLAUDEL, WOOLF & AMARAL


Anteontem, na Sábado, escrevi sobre A árvore dos Toraja, penúltimo romance do francês Philippe Claudel (n. 1962), autor que se divide entre a literatura e o cinema. Como o próprio autor, também o narrador é cineasta. Um homem que se vê confrontado com o cancro de Eugène, o seu melhor amigo. O ponto de partida da narrativa terá sido uma viagem feita pelo autor à Indonésia, mais exactamente ao arquipélago das Célèbes, onde se situa a ilha de Sulawesi, território do povo Toraja. Os Toraja enterram os seus mortos precoces (crianças) na cavidade de uma árvore. O livro é uma reflexão sobre a morte e o poder da amizade, com envios ao passado comum: afinidades electivas, remorsos, afectos. Em suma, uma subtil elegia branchée. Como bom francês, Philippe Claudel não consegue abstrair-se de citar alguns dos seus pares. Ao fim de duas páginas apanhamos com Ismaïl Kadaré, «que leio pelo menos uma vez a cada dois anos». Mas também temos direito a Kundera. Afinal de contas, era o autor dilecto de Eugène. Até Michel Piccoli tem a sua quota, no cenário improvável de um McDonalds. Móbil, a erosão do tempo: «Pertenço a um tempo que acabou. Como os dinossauros…», sublinha o actor. Philippe Claudel pretende contrapor a cultura da morte, conforme ritualizada no Oriente, à rasura da tradição ocidental. Agora que a doença se tornou uma obsessão das sociedades industrializadas, entaladas entre os interesses dos lobbies farmacêuticos e a cultura do medo, é natural que a literatura dê voz a essa espécie de ansiedade colectiva. É o que pretende fazer o autor, pondo em pauta a camaradagem de dois homens unidos por inextricáveis laços de cumplicidade. Havendo matéria para um romance, é pena que Philippe Claudel fique pelo récit de perfil ensaístico. A título de exemplo, um texto de Mario Rigoni Stern é trazido à colação a propósito do suicídio de Primo Levi: «Ambos tinham tido de atravessar a pé a Europa dos mortos para regressarem ao seu país.» Um cínico dirá que A árvore dos Toraja não anda longe dos livros de auto-ajuda. Para intelectuais, evidentemente. Três estrelas. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre Momentos de Vida, de Virginia Woolf (1882-1941), cuja importância no contexto da Literatura do século XX seria fútil sublinhar. Romancista, contista, ensaísta e crítica literária, Virginia escreveu ainda um importante diário, parcialmente traduzido em Portugal. Em 1976 foram descobertos cinco textos autobiográficos, inéditos, escritos entre 1907 e 1939, editados e reunidos por Jeanne Schulkind com o título Momentos de Vida. Não se tratando de uma obra que de algum modo interfira com o cânone da autora, é um documento importante para a compreensão de um largo período da vida inglesa e, em especial, para a forma como os bloomsberries viam o seu tempo. Vem a propósito lembrar a síntese de Quentin Bell: «considerado como uma entidade ética, social e estética...», o mundo moderno nasceu em 1910, no Bloomsbury. O livro abre com “Reminiscências”, ensaio dividido em cinco capítulos, fechando com os textos lidos no Clube de Memórias, criado por Mary MacCarthy (não confundir com a americana Mary McCarthy, trinta anos mais nova). No meio, “Um Esboço do Passado”, escrito em 1939, pouco antes do suicídio de Virginia, analisa o Bloomsbury de um novo ângulo. Além de fac-símiles, o volume inclui portfolio fotográfico. Quatro estrelas. Publicou a Ponto de Fuga.

E também sobre What’s in a Name, de Ana Luísa Amaral (n. 1956). Depois da novela autobiográfica com que em 2013 expôs publicamente a sua orientação sexual, a autora continuou a publicar colectâneas de poemas, mas é com  What’s in a Name, chegado agora às livrarias, que reencontramos o melhor da sua obra. No poema que dá o título ao conjunto, pergunta a autora: «[…] o que há num nome?» Poeta central da poesia portuguesa contemporânea, a autora tem-se destacado pela forma hábil como, sem se afastar do classicismo da tradição anglo-americana (Emily Dickinson e Anne Sexton são referências próximas), consegue impor a voz que dá «nome a estas coisas», fazendo-o sempre com o rigor oficinal que faz da sua escrita um lugar de alto conseguimento: «Mas não há nada de natural num nome: / como uma roupa, um hábito, normalmente para a vida inteira, / ele nada mais faz do que cobrir / a nudez em que nascemos» A identidade é um ferrete. Que quase todos estes poemas tenham por objecto matéria improvável (abacates, castanhas bravas, azeite, especiarias, ostras, etc.) e o cenário heterodoxo de uma cozinha, dá a medida do virtuosismo da autora. Afinal, a grande poesia tende a evitar a grandiloquência. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,1%. A diferença entre o PS e o PSD passou para onze pontos. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 35,4%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ANEL DE FOGO


A crise do Golfo pode mergulhar aquela região do mundo numa guerra de consequências imprevisíveis. Não é vulgar um grupo de países (neste caso a Arábia Saudita, o Bahrein, o Egipto, os Emirados Árabes Unidos e o Iémen) decidir, em bloco, cortar relações com outro, neste caso o Qatar. O argumento de que o Qatar financiaria o Daesh, a al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana, acolhendo outros grupos terroristas no seu território, é de peso, sim senhor, mas caiu do céu? Descobriram isso ontem? Descobriram todos ao mesmo tempo? Estranho.

Com todas as ligações terrestres, marítimas e aéreas cortadas, o Qatar fica isolado do mundo (sete companhias aéreas suspenderam os voos). Dependendo das importações dos países vizinhos, a escassez de alimentos está no horizonte. Há notícias de que em Doha, a capital, os supermercados já estariam sem stock. Os diplomatas acreditados em Doha foram chamados à origem, e os do Qatar têm 48 horas para sair. Os cidadãos do Qatar têm 14 dias para sair desses países.

domingo, 4 de junho de 2017

LONDRES

Estão confirmados 7 mortos e 48 feridos vítimas dos três ataques de ontem à noite em Londres. Três atacantes foram abatidos pela polícia (elevando para dez o número de mortos). A campanha eleitoral foi suspensa, mas o Governo descartou a hipótese de adiar as eleições do próximo dia 8. Theresa May convocou para esta manhã o gabinete de emergência COBRA.

sábado, 3 de junho de 2017

LONDRES. TERROR DE NOVO


Em dois pontos diferentes da capital britânica, primeiro na London Bridge, depois no Borough Market, transeuntes foram deliberadamente atropelados. Para já, vinte feridos. A ponte está encerrada. Tudo se passou por volta das 23 horas. Clique na imagem para ler melhor o comunicado da Polícia Metropolitana.

IRLANDA COM PM GAY


Leo Varadkar, médico, 38 anos, homossexual assumido, filho de pai indiano (médico imigrante) e mãe irlandesa, foi eleito líder do Fine Gael, o partido maioritário irlandês. Por essa razão vai ocupar daqui a dias o lugar de primeiro-ministro da Irlanda.

COINCIDÊNCIAS

Há coincidências tramadas. No momento em que António Mexia é constituído arguido por alegada corrupção activa e passiva e participação económica em negócio, o Público entrevista Jorge Jardim Gonçalves, o fundador do BCP, que aproveita a oportunidade para envolver o CEO da EDP na queda da sua administração, em 2007: «Foram muitos milhões de euros de crédito dados, a partir de 2006, pelo BCP, pela CGD e pelo BES aos grupos que se movimentaram com António Mexia para comprarem acções do BCP.» Note-se o punctum: aos grupos que se movimentaram com António Mexia para...

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARMANDO SILVA CARVALHO 1938-2017


Não sendo uma surpresa para os mais próximos, a morte de Armando Silva Carvalho, ocorrida esta manhã, no Hospital Particular Montepio Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha, representa um duro golpe na vida literária portuguesa. Poeta, ficcionista e tradutor, deixou uma obra ímpar, de que destacaria Armas Brancas (1977), Técnicas de Engate (1979), Alexandre Bissexto (1983), Lisboas (2000), um dos mais importantes livros de poesia portuguesa do século XX, O Amante Japonês (2008) e A Sombra do Mar (2016), seis títulos que dão a medida do fulgor da sua poesia. Mas também Portuguex (1977), narrativa singularíssima que passou incólume entre os holofotes da desatenção nacional.

Publicado em 2007, O Que Foi Passado a Limpo colige os doze livros de poesia que publicou entre 1965 e 2001. Como a Obra não parou nesse ano, uma reedição acrescentada dos livros posteriores seria bem-vinda. Armando Silva Carvalho exerceu advocacia, foi professor do ensino secundário e publicitário. Entre outros, traduziu Beckett, Voznesensky, Genet, Mallarmé, Cummings e a Duras, bem como a correspondência trocada entre Rilke, Pasternak e Marina Tsvétaïeva. Os livros publicados entre 1965 e 1983 foram assinados Armando da Silva Carvalho. Com Maria Velho da Costa, foi co-autor de um curioso livro de memórias oblíquas, O Livro do Meio (2006). Colaborou extensamente na imprensa e recebeu todos os prémios que havia para receber. Agora acabou. Tinha 79 anos. Até sempre, Armando!

BARRY & McCULLERS


Hoje na Sábado escrevo sobre Dias Sem Fim, o romance mais recente do irlandês Sebastian Barry (n. 1955). O autor não é um desconhecido dos portugueses, tendo a sua ficção sido bem recebida pelo público e pela crítica, o que não acontece com a poesia e o teatro, inéditos em Portugal. Narrativa de fôlego, trata das aventuras e da relação amorosa entre Thomas McNulty e John Cole, companheiros de armas durante a Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos. Quem conheça a obra anterior, sabe que Dias Sem Fim é o quarto livro do autor sobre a família McNulty, obrigada a cruzar o Atlântico para fugir à Grande Fome na Irlanda. Por volta de 1850, Thomas, o narrador, chegou ao Missouri e alistou-se como voluntário. Tinha então dezassete anos. John, com dezasseis, mas parecendo já um homem, tinha um ar janota e era bisneto de uma índia. Os dois tornaram-se amigos para a vida. Mas a história não começa aí. Antes da experiência militar, ambos arranjaram emprego como taxi girls num cabaré de Daggsville. Falando dos clientes, ou seja, dos mineiros da região, o empregador adverte: «Eles só precisam da ilusão […] nada de beijos, nem abraços, nem sentimentos ou apalpadelas. Só uma boa dança respeitosa.» E foi assim que Thomas e John, dois belos rapazes, se tornaram as primeiras raparigas em Daggsville, verdadeiras fadas da pradaria: «Todas as noites, ao longo de dois anos, dançámos com eles.» Era isso ou morrer à fome. Por sinal, Thomas até se sentia bem vestido de mulher. Quando acabou o tempo do cross-dressing (os rapazes eram agora homens), alistaram-se no exército. A elegância da escrita de Barry faz do romance uma elegia. Nenhuma vulgaridade ou proselitismo belisca a intriga, pontuada de fina ironia e anotações subtis sobre questões identitárias: as idiossincrasias irlandesas de Thomas («O irlandês acha que tem razão e é capaz de matar toda a gente para fazer valer a sua ideia»), o sangue índio de John, virilidade vs ambivalência, etc. Os episódios de batalha são descritos com invulgar fluência, com o seu estendal de medos, hidropisia, escorbuto e varíola. De certo modo, um romance de formação. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

Escrevo ainda sobre Frankie e o Casamento, terceiro e penúltimo romance de Carson McCullers (1917-1967). Não tendo a mística dos anteriores, que fizeram lenda, não deixa por isso de ser uma vigorosa narrativa auto-referencial. Como a autora, também o pai de Frankie foi proprietário de uma joalharia. A história de Frankie, uma rapariguinha de doze anos, órfã de mãe, atinge o paroxismo por ocasião do casamento do irmão mais velho: «Era a manhã diferente de todas as manhãs que conhecera…» Tudo se passa num fim-de-semana de Agosto de 1944, algures no Sul americano. Frankie é aquilo a que chamamos uma adolescente disfuncional, enredada nos seus fantasmas, casmurra, estranha a convenções, “estrangeira” em todos os lugares. Como de regra, McCullers é imbatível nos retratos psicologistas. A partir de certa altura, Frankie passa a denominar-se F. Jasmine. Hoje, uma personagem com doze anos seria tratada como criança, sem os traços de carácter que McCullers lhe atribui. Mas nos anos 1940 foi possível imaginar Frankie como alguém que fantasiava uma união a três: ela, o irmão que vai casar, e Jasmine, a futura cunhada. A escrita por vezes elíptica permite vários ângulos de leitura. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ANDA TUDO DOIDO?


O Festival Nyansapo, um happening feminista para mulheres negras, agendado para 28 a 30 de Julho, em Paris, foi proibido por Anne Hidalgo. A presidente da Câmara proibiu o festival e reserva-se o direito de processar os organizadores por alegada discriminação. O argumento de Madame Higalgo radica no facto de o evento ser proibido a brancos, salvo um número muito restrito de convidados, os quais nem nessa qualidade teriam acesso a todas as áreas do espaço onde decorreria o evento. Clique na imagem do Twitter para ler melhor.

CENTENÁRIO DE KENNEDY


Celebra-se hoje o centenário do nascimento de John F. Kennedy (1917-1963), assassinado aos 46 anos, em Dallas, naquele que terá sido o assassinato mais dissecado na literatura, no cinema e na televisão. A fracassada invasão da Baía dos Porcos (Cuba), em Abril de 1961, terá sido o principal detonador da sua morte. Kennedy tentou (e, em parte, conseguiu) reformar a América profunda, em especial no tocante ao apartheid de que eram vítimas as populações de cor, dando uma guinada na forma como os segmentos mais conservadores e xenófobos da sociedade americana entendiam os direitos civis. No breve período do seu mandato como 35.º Presidente dos Estados Unidos, ao lado de Jackie, transformou a Casa Branca em Camelot. O rapaz (catorze anos) cinéfilo que eu era acordou para a política no dia da sua morte. Afinal, o homem não tinha sido só o amante de Marilyn Monroe. Kennedy não gostava de Salazar e ainda menos da política ultramarina de Salazar, e nunca fez segredo disso.

domingo, 28 de maio de 2017

O 27 DE MAIO


Assinalando os 40 anos da chacina contra os nitistas ou, se preferirem, contra a Revolta Activa, tragédia que passou à História como «o 27 de Maio», o Expresso dedica oito páginas ao assunto. Sita Valles, em corpo inteiro, é capa da revista. O trabalho inclui depoimentos de vários sobreviventes, bem como o excerto de um discurso de Agostinho Neto. O texto não omite pormenores macabros, nem o previsível número de vítimas, nunca inferior a 30 mil pessoas: «A Amnistia Internacional estima um intervalo entre 20 mil e 40 mil [...] a Fundação 27 de Maio apontou para 80 mil desaparecidos.» O livro dos historiadores Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus é citado de raspão. O que me faz confusão é nenhum dos autores se ter lembrado de citar o nome do ministro responsável pela polícia política, a DISA, nem a ominosa Comissão das Lágrimas e principais inquiridores. O que não falta é bibliografia atinente. Também omite a prisão (e vamos ficar por aqui) de Maria da Luz Veloso, secretária pessoal de Agostinho Neto. Porquê?

sábado, 27 de maio de 2017

UM MARIDO ENTRE MULHERES


Gauthier Destenay, marido de Xavier Bettel, primeiro-ministro do Luxemburgo, posou no retrato oficial das primeiras-damas que acompanharam os maridos à Cimeira da NATO. Destenay e Bettel, que em 2010 tornaram pública a sua união, casaram em Maio de 2015, antes das eleições que deram a vitória a Bettel.

Na foto, tirada no Castelo Real de Laeken, em Bruxelas, vêem-se Brigitte Trogneux, mulher de Macron, Emine Erdogan, mulher do presidente turco, Melania Trump, mulher do presidente americano, a rainha Mathilde da Bélgica, anfitriã do encontro (vestido estampado), Ingrid Schulerud, mulher do secretário-geral da NATO, as primeiras-damas da Islândia, Noruega e Bulgária, e, na ponta direita, de vestido branco, Amelie Derbaudrenghien, mulher do primeiro-ministro belga.

Clique na imagem.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

BRASÍLIA JÁ ESTÁ A ARDER?

Uma manifestação contra Temer juntou em Brasília, ontem, cerca de duzentas mil pessoas. Foi incendiado o edifício onde estão instalados os ministérios da Agricultura, do Planejamento e da Cultura. Os funcionários receberam ordem para abandonar o local de trabalho a seguir ao almoço. No momento mais crítico da manif, quando a polícia militar entrou em força, bloqueando o acesso ao Congresso, já só estariam no local 35 mil manifestantes. Por decisão de Temer, as Forças Armadas vão assegurar o perímetro de segurança que envolve a denominada Esplanada dos Ministérios.

terça-feira, 23 de maio de 2017

HORROR EM MANCHESTER


Acordo com a terrível notícia do atentado de Manchester: até ao momento, confirmados 22 mortos e 59 feridos graves. Tudo aconteceu no fim do espectáculo da cantora americana Ariana Grande, quando (eram 22:33) um bombista-suicida se fez explodir no foyer do Manchester Arena. Por razões que não vêm ao caso, estive desligado do mundo a partir do princípio da tarde de ontem, razão pela qual só hoje de manhã soube do acontecido.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

PDE

Portugal saiu hoje do Procedimento por Défice Excessivo, situação em que se mantinha desde 2009. Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia, sublinhou: «Este é um dia importante para Portugal.» A gajada da PAF esgotou todo o stock de Guronsan.

domingo, 21 de maio de 2017

TAPAR OU NÃO TAPAR


Na Arábia Saudita, Melania e Ivanka Trump, respectivamente mulher e filha do Presidente americano, desembarcaram e têm participado dos actos oficiais de cabelos ao léu. Fazem elas muito bem. Michelle Obama, Angela Merkel e Theresa May fizeram o mesmo quando ali estiveram em visitas oficiais. O lado anedótico da questão é que Trump havia criticado duramente Michelle Obama por ter feito, em Janeiro de 2015, o que a mulher e a filha estão a fazer. Clique na imagem para conferir.

sábado, 20 de maio de 2017

TEMER O PIOR

Michel Temer, Presidente do Brasil,  foi ontem formalmente acusado de corrupção, organização criminosa e obstrução à justiça. Rodrigo Janot, procurador-geral da República, considera as provas consistentes e «estarrecedoras». Neste momento, o Congresso tem em carteira um total de doze pedidos de impeachment do Presidente. Ministros de três partidos da coligação que sustenta o Governo já se demitiram, alegando indisponibilidade para fazer parte de um executivo que perdeu toda a legitimidade para governar o Brasil. Nas ruas, o povo ulula.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

TIME


Ironias da História. No momento em que a Casa Branca se encontra capturada por um Presidente xenófobo e isolacionista, a Time faz a capa entre todas improvável. Clique na imagem.

NÃO SAIO, DIZ ELE

O Supremo Tribunal Federal do Brasil vai tornar pública, hoje, a gravação da conversa que compromete Temer. Ficaremos a saber o que disse exactamente o Presidente do Brasil. Para quem não sabe, recordar que tudo começou com as denúncias dos empresários Joesley e Wesley Batista, donos da JBS (uma das cinco maiores empresas mundiais da indústria alimentar), no âmbito da processo Lava Jato. Até ontem à noite, tinham dado entrada no Congresso um total de oito pedidos de impeachment de Temer. Nas ruas, o povo grita como gritou contra Dilma.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

LEIRIA & SZERB


Hoje na Sábado escrevo sobre Ficções, de Mário-Henrique Leiria (1923-1980). A obra acaba de ser reunida num grosso volume de mais de setecentas páginas. Com excepção de Cesariny, o Panteão literário português tem sido avaro com os surrealistas. Nem sequer podemos acrescentar O’Neill, porque a sua passagem pelo movimento foi um ápice. Isso talvez explique a desatenção com o autor. Ficções colige contos, a novela Diapasão, teatro, guiões, outro tipo de textos, e até a famosa banda desenhada Mário e Isabel. O volume conta ainda com ilustrações de Cruzeiro Seixas. Responsável pela edição, Tania Martuscelli, crítica de literatura e professora na Universidade do Colorado, fez um rigoroso trabalho de pesquisa no espólio do autor, não deixando nada de fora, inéditos incluídos. Tendo vivido no Brasil durante nove anos (entre 1961 e 1970, para obviar à perseguição da Pide), Mário-Henrique Leiria é sobretudo conhecido por dois livros famosos: Contos do Gin-Tonic, de 1973, e Novos Contos do Gin, de 1974, ambos anteriores à actual moda do gin. Casos de Direito Galático, de 1975, de índole marcadamente política, perfaz o trio que para a maioria dos leitores constitui a obra canónica, caracterizada por truculência verbal, alto teor de corrosão, escrita automática e humor negro. Mas é muito vasto o corpus disperso por jornais e revistas, como esta edição demonstra. Marginal do Meio literário, Mário-Henrique Leiria parodia os gurus respectivos, bem como modas e rituais do establishment. Sobre Barthes e a deriva estruturalista, desconstrói um excerto hermenêutico, laudatório (não identificado), e conclui: «Que chatice! Este país está uma desgraça. Já nem sequer há intelectuais decentes!» O seu universo era de facto outro. Nos fragmentos de O Mundo Inquietante de Josela, de 1975, o nonsense é de regra: «E então não é que, ao chegar-lhe a vez de se servir, o Zeca pega na faca e zás, no pescoço da Madame! Francamente! A cabeça caiu logo no chão. Ficámos embasbacados.» Problema maior do anfitrião… o corpo de Madame não cabia no triturador do lixo. Infelizmente, uma revisão menos atenta faz com que alguns textos sejam indicados no índice com o número de página errado. Quatro estrelas. Publicou a E-Primatur.

Escrevo ainda sobre Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb (1901-1945). Traduzido directamente do húngaro, chegou finalmente à edição portuguesa este famoso romance. Salvo melhor informação, trata-se do primeiro livro do autor a ser publicado no nosso país. Em Dezembro de 1944, não foi a origem judaica a causa da deportação para o campo de Balf, onde seria espancado até à morte no mês seguinte. Foi o teor do capítulo sobre literatura soviética que escreveu em História da Literatura Mundial (1941), ao arrepio do Diktat do regime comunista húngaro. Académico respeitado, homem do mundo, tradutor heterodoxo (P. G. Wodehouse e outros), Szerb ganhou notoriedade internacional quando, em 1994, Viajante à Luz da Lua foi traduzido para a língua inglesa. Publicado em 1937, o romance conta a história de um casamento falhado e consequente itinerância sexual. Então em voga, a psicanálise explica a personalidade e o comportamento de Mihály a partir da lua de mel em Veneza. As reflexões do autor sobre o ar do tempo são premonitórias da iminência da loucura que iria mergulhar a Europa nas trevas. Seria pleonástico insistir no classicismo da escrita do autor. Quatro estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

sábado, 13 de maio de 2017

RANSOMWARE


Já se sabe um pouco mais do ciberataque global de ontem. Foram atacados serviços e empresas de 74 países, sendo os mais afectados a Espanha, o Reino Unido, o Egipto, a China, a Itália, a Rússia, Taiwan, a Ucrânia e a Índia. No Reino Unido, o National Health Service entrou em colapso: os serviços não têm acesso aos dados dos doentes, tendo sido canceladas todas as consultas e centenas de operações. Na Rússia, os computadores no ministério do Interior foram seriamente afectados. Em Espanha, a Telefónica ficou out. Portugal não escapou, tendo os principais alvos sido a EDP e a PT. Por junto, foram afectadas 99 cidades. Tratou-se de um ataque de ransomware, ou seja, de encriptação maliciosa de dados. Segundo o New York Times, os hackers apropriaram-se do WannaCry, um software malicioso desenvolvido na NSA e, com ele, executaram o ciberataque planetário.

Clique na imagem do NYT para ver melhor.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CIBERATAQUE

Vários países europeus, incluindo Portugal, Espanha e o Reino Unido, estão a ser alvo de um ataque informático em larga escala. Como medida de precaução, a EDP desligou toda a sua rede informática às 15h. Na PT, idem. Vários Bancos fizeram o mesmo. A Telefónica espanhola está out. Há relatos, no Twitter, de terminais de ATM desligados. Aparentemente, o busílis reside nas famosas Clouds, as quais, neste momento, estão em parte incerta. Os hackers pedem resgate em bitcoins. O ciberataque terá origem no Brasil.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,6%. A diferença entre o PS e o PSD continua a ser de dez pontos. E, mesmo sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que soma 35,9%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ALEXANDRE O'NEILL


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesias Completas & Dispersos, de Alexandre O'Neill (1924-1986). Não é a primeira vez que a poesia completa do autor chega às livrarias. Esta nova edição, da responsabilidade de Maria Antónia Oliveira, sua biógrafa, inclui sete poemas inéditos, bem como quarenta e dois textos dispersos em jornais, revistas, discos e catálogos de arte. A seriação dos dispersos é cronológica. Na notal final que antecede o posfácio, Maria Antónia Oliveira dá conta do critério adoptado. Alexandre O'Neill foi, durante algum tempo, olhado com um módico de troça, desdém e maledicência por vários dos seus contemporâneos. Nascido no seio de uma família tradicional, teve uma educação liberal e uma avó sufragista que publicou versos, romances e traduções de Dumas. Os Verões passados em Amarante, onde vivia um tio-avô conotado com o reviralho, foram decisivos para a sua formação. Ali privou com Pascoaes e Bento de Jesus Caraça. Isento do serviço militar, começou a trabalhar assim que terminou o liceu. Em 1947, no MUD-Juvenil, conheceu Cesariny, que o juntou ao grupo de fundadores do Surrealismo português. Desse tempo breve ficou A Ampola Miraculosa, narrativa gráfica (1948). O primeiro livro, Tempo de Fantasmas, estabelece a dissidência. Seria preciso esperar pelo segundo, No Reino da Dinamarca (1958), para ser reconhecido como uma das vozes centrais da poesia portuguesa do século XX. Expulso da função pública por recusar luto na morte de Carmona, preso em 1953 por ter ido ao aeroporto esperar Maria Lamas, O’Neill foi tudo menos um acomodado. Em 1950, quando conhece a búlgara Nora Mitrani, tem uma epifania. Mas a mãe intercede junto da Pide para ser negado passaporte ao filho. Ficaram os versos: «Não podias ficar nesta cama comigo / em trânsito mortal até ao dia sórdido / canino / policial / até ao dia que não vem da promessa / puríssima da madrugada / mas da miséria de uma noite gerada / por um dia igual […]» O poema, Um Adeus Português, faz parte do cânone nacional. Fora antologias e narrativas em prosa, deixou-nos onze livros de poesia. Traços distintivos: lirismo autocrítico, desconstrução da tradição pícara e confronto mordaz com o quotidiano português, em particular o modo funcionário de viver. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

terça-feira, 9 de maio de 2017

BAPTISTA-BASTOS 1934-2017


Morreu hoje Armando Baptista-Bastos, jornalista e escritor que o país inteiro conhecia simplesmente como Baptista-Bastos. BB, como era tratado no milieu, começou a escrever em jornais em 1953. Escreveu em quase todos, escreveu sobre quase tudo, entrevistou quase toda a gente que conta, fez reportagens, e ainda teve tempo para nos deixar oito romances, colectâneas de crónicas e volumes de ensaio. Também trabalhou na rádio, na televisão e em cinema. Resumindo: durante mais de sessenta anos, nunca esteve parado. Ficou célebre a série de dezasseis entrevistas encomendadas pelo Público, em 1999, com a pergunta famosa: «Onde é que você estava no 25 de Abril?» Com a sua morte desaparece uma das testemunhas centrais do século XX português. Se nunca leu, vá à procura de Cão Velho Entre Flores, romance de 1974. Sim, era um homem de Esquerda, mas até a Direita ultramontana o respeitava. Tinha 83 anos.

VALLS NUNCA DESILUDE

Macron toma posse no próximo domingo, dia 14. Ontem soube-se que o seu movimento, En Marche!, concorrerá às eleições legislativas de Junho com nova designação: La République en Marche. Na qualidade de presidente eleito, Macron abandonou a liderança partidária, sendo substituído interinamente por Catherine Barbaroux. O congresso de meados de Julho confirmará, ou não, a nova direcção.

Frisson do dia: Manuel Valls, antigo primeiro-ministro e candidato derrotado nas primárias do PS, vai abandonar os socialistas e quer concorrer nas listas da... République en Marche:

«Comme j’invite d’ailleurs tous les députés sortants, les progressistes, ceux qui ont appelé à voter Emmanuel Macron avant le premier tour, ceux qui souhaitaient sa victoire, moi je serai candidat de la majorité présidentielle, et souhaite m’inscrire dans ce mouvement qui est le sien, la République en marche».

Sempre achei o homem um videirinho. Parece que tinha razão.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

CAPA & CONTRACAPA


Capa e contracapa do Libé. Mas a ideia não é nova: o Diário de Notícias fez o mesmo em 14 de Junho de 2005, com Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade, que tinham morrido ambos na véspera. Clique na imagem para ver melhor.

FICOU ASSIM


Os números oficiais. Mais de 16 milhões de eleitores (exactamente 16 170 672) preferiram abster-se, votar branco ou nulo. Apesar de tudo, ainda não foi a débâcle da França dos valores europeus. Clique na imagem para ler melhor.

A FRANÇA ACORDOU?


Apesar de uma abstenção alta — 25,4% é um valor elevado para a tradição francesa —, a história acabou bem. No entanto, os 66,06% de Macron significam que um terço dos eleitores (os que votaram Le Pen) continua a rever-se na extrema-direita mais xenófoba. A imagem é do Monde. Clique nela.

domingo, 7 de maio de 2017

MACRON


As primeiras projecções. Imagem do Monde. Clique para ver melhor.

BLASÉ OU OUTRA COISA?

Números oficiais: até às cinco da tarde (em França) tinham votado 65,3% dos eleitores. Na primeira volta, até à mesma hora, tinham votado 69,5%.

MACRONLEAKS


A história repete-se. A exemplo do que aconteceu na campanha de Hillary, quando milhares de documentos internos no comité eleitoral Democrata foram pirateados, chegou a vez de Macron ser vítima de igual devassa. O movimento político En Marche!, que suporta a campanha do candidato, confirmou ter sido hackeado anteontem à noite. Um ataque massivo e coordenado deu origem à difusão de vasta documentação interna, grande parte da qual está a ser manipulada e truncada nas redes sociais e em tablóides europeus, russos e americanos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

PATRÍCIA REIS


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance mais recente de Patrícia Reis (n. 1970), A Construção do Vazio. Toda a literatura é circular. Vários personagens do livro andam connosco há uma década. O ciclo fechou. Patrícia Reis é muito hábil na forma como dá vida ao universo ficcional que construiu a partir de No Silêncio de Deus (2008). Nessa altura chegou Manuel Guerra, entretanto falecido, em casa de quem o manuscrito que agora vê a luz do dia teria sido encontrado. Depois, Por Este Mundo Acima (2011) trouxe Sofia, nascida para ser vítima de humilhação e abuso, obrigada a sobreviver sabendo que nem toda a maldade será castigada. Tentando obliterar os fantasmas da infância, Sofia é uma menina-tesoura enclausurada no vazio em que cresceu. A escrita seca de Patrícia Reis não dá azo a delíquios. Pelo contrário: as palavras têm a exactidão dos factos. Neste caso, o horror da violência em família. Sofia tem dez anos e o pai faz dela o que lhe apetece: «De quatro, como um animal, na casa de banho, amarrada à força do meu pai…». A mãe faz por ignorar. O desfecho indicia outra vida, mas a insegurança persiste. Seguro, só o domínio narrativo da autora. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 2 de maio de 2017

BURACO NEGRO

Em 2002, no 1.º de Maio, as centrais sindicais francesas juntaram-se e celebraram a data juntas, mobilizando dois milhões de franceses. Ambas foram claras no não a Jean-Marie Le Pen. Como resultado, Chirac foi eleito dias depois com 82,2% dos votos, contra 17,8% do fundador da FN. Ontem, cada central optou por desfilar sozinha, e nenhuma invectivou Marine Le Pen. A mobilização cumpriu os mínimos. Macron foi ignorado. Definitivamente, a França entrou num buraco negro.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

JOHN FANTE


Hoje na Sábado escrevo sobre 1933 Foi um Mau Ano, do americano John Fante (1909-1983), autor pouco conhecido entre nós que deixou uma obra breve mas consistente. Bukowski considerava-o seu mestre e, nos últimos vinte anos, a crítica mais exigente faz-lhe vénia. A novela póstuma 1933 Foi um Mau Ano chegou agora à edição portuguesa. A diabetes que o levou à cegueira e amputação das duas pernas, ao mesmo tempo que explica o seu relativo apagamento da cena literária, é uma razão plausível para o livro ter ficado por concluir. Fante, que nasceu no seio de uma família de Abruzzo, é o celebrado autor do quarteto novelístico Bandini, que abre (embora tenha sido o último a ser publicado) com Estrada para Los Angeles, um dos seus livros traduzidos em Portugal. A escrita sofisticada do autor resgata a intriga da sua aparente trivialidade: vivendo em Roper, no Colorado, Dominic Molise, o narrador, vive emparedado entre o sonho do basebol e as contingências da Grande Depressão que sucedeu ao crash de 1929. Mesmo incompleto, 1933 Foi um Mau Ano não deixa de ser um autêntico Bildungsroman, ou seja, um romance de formação por intermédio do qual o autor põe em pauta uma panóplia de questões identitárias. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CONTRA O SILÊNCIO


Como os media portugueses omitem a presença e as palavras de Etienne Cardiles na homenagem que Hollande prestou ao seu companheiro Xavier Jugelé, assassinado pelo Daesh no passado dia 20, deixo aqui excertos dessas palavras. Etienne Cardiles, diplomata, disse:

«Xavier, jeudi matin, comme de coutume, je suis parti travailler et tu dormais encore. […] Tu as pris ton service à 14 heures dans cette tenue de maintien de l’ordre dont tu prenais tant soin parce que ta présentation devait être irréprochable. Tes camarades et toi aviez reçu la mission de rejoindre le commissariat du VIIIe arrondissement. […] On t’a désigné comme point de stationnement le 102 des Champs-Elysées, devant l’institut culturel de Turquie. Ce type de mission, je le sais, te plaisait, parce que c’était les Champs-Elysées et l’image de la France. Parce que c’était aussi la culture que vous protégiez. A cet instant, à cet endroit, le pire est arrivé, pour toi et tes camarades. […] Je suis rentré le soir sans toi avec une douleur, extrême et profonde, qui s’apaisera peut-être un jour, je l’ignore. […] Pour ce qui me concerne, je souffre sans haine. J’emprunte cette formule à Antoine Leiris dont l’immense sagesse face à la douleur a tant fait mon admiration que j’avais lu et relu ces lignes il y a quelques mois. C’est une leçon de vie qui m’avait fait tant grandir qu’elle me protège aujourd’hui. Lorsque sont parus les premiers messages informant les Parisiens qu’un événement grave était en cours sur les Champs-Elysées et qu’un policier avait perdu la vie, une petite voix m’a dit que c’était toi. Et elle m’a rappelé cette formule généreuse et guérisseuse: Vous n’aurez pas ma haine. Cette haine, Xavier, je ne l’ai pas parce qu’elle ne te ressemble pas. Parce qu’elle ne correspond en rien à ce qui faisait battre ton cœur, ni ce qui avait fait de toi un gendarme puis un gardien de la paix. Parce que l’intérêt général, le service des autres et la protection de tous faisaient partie de ton éducation et tes convictions et que la tolérance, le dialogue et la tempérance étaient tes meilleures armes. Parce que derrière le policier, il y avait l’homme, et qu’on ne devient policier ou gendarme que par choix: le choix d’aider les autres, de protéger la société et de lutter contre les injustices. […] C’était la vision que nous partagions de cette profession, mais une facette seulement de l’homme que tu étais. L’autre facette de l’homme était un monde de culture et de joie, où le cinéma et la musique prenaient une immense part. […] Une vie de joie et d’immenses sourires, où l’amour et la tolérance régnaient en maîtres incontestés. Cette vie de star, tu la quittes comme une star. […] Je voudrais dire à tous ceux qui luttent pour éviter que ces événements se produisent, que je connais leur culpabilité et leur sentiment d’échec et qu’ils doivent continuer à lutter pour la paix. […] A toi, je voudrais te dire que tu vas rester dans mon cœur pour toujours. Je t’aime. Restons tous dignes et veillons à la paix et gardons la paix

Entre outras personalidades, assistiram à cerimónia de condecoração póstuma o Presidente da República, Hollande, o primeiro-ministro Bernard Cazeneuve, outros ministros, Anne Hidalgo, maire de Paris, o antigo PM Valls, os candidatos Macron e Marine Le Pen, bem como muitos diplomatas, generais e os mais altos representantes das forças de segurança.

A imagem (e transcrição do texto) é do Libération. Clique nela.

terça-feira, 25 de abril de 2017

NÃO CONTEM COM O MEU ÓDIO

Xavier Jugelé, o polícia morto na fusillade do passado dia 20, em Paris, era casado com um homem. Falando na homenagem que a República prestou a Xavier, olhando todos nos olhos, Etienne Cardiles, o viúvo, foi claro:

Vous n’aurez pas ma haine. Cette haine, Xavier, je ne l’ai pas parce qu’elle ne te ressemble pas.

Estavam lá todos: Hollande, que condecorou Xavier Jugelé a título póstumo; o Governo em peso, Macron, madame Le Pen, diplomatas, generais, os mais altos representantes das forças de segurança, etc. Numa França esfrangalhada, isto também é uma espécie de 25 de Abril.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

UM BANQUEIRO NO ELISEU


A vitória de Macron levanta a questão de saber como é que um homem sem partido (o movimento En marche! não é um partido) formará governo se, como se prevê, vença a segunda volta a realizar a 7 de Maio. Irá buscar personalidades próximas do PS, do qual foi militante entre 2006 e 2009? Vira-se para os Republicanos? Faz um melting pot dos dois? Quem é que indicará para primeiro-ministro? Mundo não lhe falta. Mundo e jogo de cintura. Um homem que foi secretário-geral da Presidência da República (2012-14) e ministro da Economia e da Indústria (2014-16), conhece bem o milieu político e trata por tu a alta-finança internacional. Não esquecer que Macron é uma ‘criação’ da casa Rothschild. Tudo indica que o PS francês vai aproveitar a embalagem para tirar partido da vitória do seu antigo militante.

PRIMEIRO ROUND


Os primeiros resultados oficiais. Gráfico do Guardian. Clique para ler melhor.

domingo, 23 de abril de 2017

DUELO MACRON VS LE PEN


Quando estão contados dois terços dos votos, os resultados das Presidenciais francesas são estes. A imagem é do Monde. Clique para ver melhor.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

FUSILLADE


A três dias da 1.ª volta das presidenciais francesas, um atentado reivindicado pelo Daesh fez um morto (um polícia) e dois feridos graves, nos Campos Elísios, em Paris. O ataque deu-se entre a loja Marks & Spencer e a estação de metro Franklin D. Roosevelt. A avenida continua cortada ao trânsito.

Imagem: Le Monde. Clique.

BRUNO VIEIRA AMARAL



Esta semana, na Sábado, escrevo sobre Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral (n. 1978). Quem tenha lido o que escrevi há cerca de quatro anos sobre o primeiro romance do autor, não ficará surpreendido com o juízo que faço do segundo. Sublinhei então a qualidade da narrativa («o texto é brilhante»), bem como a evidência de que «temos escritor». Tudo se confirma. Bruno Vieira Amaral tem o enorme mérito de não escrever para a academia, nem complexos sobre Realismo. Em suma, as palavras têm vida própria, estão no sítio certo, e o leitor interessado em devaneios metafísicos terá de procurar noutra freguesia. Partindo de uma grelha autobiográfica, porém ficcionada, o autor intercala no plot reflexões de natureza hermenêutica que sinalizam o lugar do narrador. A investigação em torno do assassínio do primo João Jorge permite mergulhar nas remotas memórias da infância e adolescência: pai ausente, ecos da Angola colonial, o bairro em que cresceu, ilustrado com virtuosismo no romance anterior. Não me recordo, na literatura portuguesa das últimas décadas, de descrições tão vívidas dos anos da puberdade: mitos, rituais, erotismo, carências, matraquilhos, almoços de domingo, cromos da bola, a «praia do cagalhão», torneios com caricas, cumplicidades tribais, alcunhas. Verdade que desde As Primeiras Coisas temos o Bairro Amélia inscrito no cânone literário, mas agora podemos vê-lo em cinemascope. Factos reais intercalados com acuidade pontuam a evolução da história. Sirvam de exemplo os anos da fome em Setúbal ou o Caso Dona Branca. A destreza do narrador autodiegético ajuda, mas é o domínio dos recursos narrativos que dá eficácia à trama romanesca, servida por uma escrita limpa e polida até ao osso. De forma natural, o enquadramento histórico (em particular sobre Angola) “explica” a personalidade de vários personagens. Isso e as reminiscências da Luanda pré-independente. O mesmo se diga da reconstrução do assassinato de João Jorge: excertos de notícias de jornal, autos policiais, ressonância da vox populi, mnemónica atinente. Por último mas não em último, sublinhar o carácter identitário do texto, a força de uma prosa isenta de qualquer espécie de floreados retóricos: «Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?» A obra responde. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre o oitavo volume da série diarística Dias Comuns, de José Gomes Ferreira (1900-1985), volume que tem como subtítulo Livro das Insónias sem Mestre. Num país sem tradição memorialística — os exemplos de Raul Brandão, Torga, Saramago e Ruben A., não sendo os únicos, estão longe de fazer escola —, o diário de Gomes Ferreira tem, sobre outros, o mérito de ilustrar o comportamento do milieu durante a ditadura do Estado Novo. O autor não insinua nem discreteia em abstracto: cita nomes, datas, prémios, anedotário de café, mexericos, etc. O foco central é o país e a literatura. Apesar da aparente secura, não há azedume na prosa. Gomes Ferreira, que em vida foi um cavalheiro, mantém-se igual a si mesmo. Reportando ao período que vai de Agosto de 1969 a Janeiro de 1970, o volume não ignora as eleições do consulado de Caetano, quem era quem na CEUD e na CDE, a violência dos legionários, o cinismo da Pide, e até o manifesto dos escritores (cortado pela Censura), aqui reproduzido na íntegra, com o nome dos seus 83 signatários. A propósito: por que razão a poesia de Gomes Ferreira anda desaparecida há mais de vinte anos? Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

terça-feira, 18 de abril de 2017

BORA LÁ


Hoje em Lisboa. Clique na imagem.

THERESA ANTECIPA


Para calar os detractores do Brexit, Theresa May anunciou há momentos que haverá eleições gerais antecipadas no próximo 8 de Junho. Com o Labour em frangalhos, e sem que os britânicos tenham começado a sentir os efeitos das negociações «duras» que ela pretende, o momento é ideal.

A imagem é do Guardian. Clique nela.

sábado, 15 de abril de 2017

FRANÇA


A mais recente sondagem do Monde. E não é que Mélenchon, 65 anos, eurodeputado, esquerda dura, anti-UE, chegou aos 20% das intenções de voto? Tecnicamente empatado com Macron, Le Pen e Fillon, tudo pode acontecer. Clique na imagem para ler melhor.