sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DIREITOS SELECTIVOS


Em Villeneuve-Loubet é proibido proibir. E nas outras comunas (cerca de trinta) com leis semelhantes em vigor? Sublinhado: «Si l'arrêté de Villeneuve-Loubet se retrouve de facto invalidé, ceux des autres communes restent toujours en vigueur tant qu'ils n'ont pas été contestés devant la justice.» Os representantes da comunidade muçulmana em França esperam que o acórdão faça jurisprudência noutras comunas. Por enquanto, não faz. Imagem do Libération. Clique.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

IRIS MURDOCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Sino, de Iris Murdoch (1919-1999), que é ao mesmo tempo uma romancista de grande sucesso e uma académica respeitada na área da filosofia. Além de ensaios, Iris escreveu poesia, peças de teatro, crítica literária, contos e vinte e seis romances, alguns deles bestsellers em vários países. O Sino, que voltou às livrarias com uma terceira tradução, põe em confronto as regras do materialismo com a deriva “espiritual”, não necessariamente religiosa. As questões morais estão no centro da intriga, como nenhum leitor seu desconhece. O ensaísmo pauta-se por igual preocupação: decerto não por acaso, o primeiro livro que publicou é sobre Sartre. Depois do retrato de Dora, a protagonista, enredada em adultério e nos dilemas típicos dos anos 1950 (origem middle class da aluna e depois mulher de Paul Greenfield, historiador de arte, seu professor na Slade, aristocrata e treze anos mais velho), o romance centra-se no microcosmo da Abadia de Imber, a comunidade laica onde tudo acontece. Forçada a juntar-se ao marido no Gloucestershire, Dora fica refém de situações imprevisíveis, às quais os manuscritos raros do século XIV, móbil da retiro, são indiferentes. A homossexualidade é um dos temas presentes, nos acasos que unem Michael, Nick e Toby, facto curioso se tivermos em conta que o livro saiu em 1958, um ano após a divulgação do controverso Relatório Wolfenden, que propôs a descriminalização no Reino Unido da homossexualidade entre adultos. Iris foi mais longe: mete Michael e Toby num Land-Rover e em três páginas de subtileza inatacável descreve uma epifania. Com 18 anos, Toby tem idade para ser filho de Michael. Leitmotiv da obra de Iris, o conflito entre o Bem e o Mal molda toda a narrativa, por vezes de forma ambivalente: «a mão de Toby encontrou a sua num forte aperto de mão. Ficaram assim juntos em silêncio na escuridão.» O carácter aforístico ou sentencioso da escrita de Iris é deveras interessante: «Era muito magro e tinha aquele ar franco e um pouco insolente das pessoas felizes.» Como este, existem muitos exemplos que lembram de imediato os romances de Agustina Bessa-Luís. A literatura comparada tem aqui terreno fértil. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Fechada Para o Inverno, de Jorn Lier Horst (n. 1970). Um dia terá de ser feito um estudo sobre os inspectores de polícia que a dado momento da vida abandonam a carreira para serem escritores. Entre outros exemplos, cito Rubem Fonseca e Jorn Lier Horst, embora o brasileiro tenha sobre o norueguês várias vantagens, entre elas a de um imaginário ficcional mais abrangente. Até agora inédito em Portugal, Horst escreve thrillers, sendo os mais conhecidos os que têm o inspector Wisting como protagonista. Fechada Para o Inverno, o sétimo dos dez volumes da série, assinala a sua estreia entre nós. Uma nota introdutória dá a conhecer um minucioso perfil de Wisting (origens, formação, carácter, família), bem como da região onde a história decorre. A moda dos policiais escandinavos terá que ver com o tipo de crimes ficcionados, em tudo diferentes da tradição anglo-americana. O estranho assalto à casa de Verão de um apresentador de televisão célebre é o detonador do plot. A investigação vai da Noruega à Lituânia, tendo a filha de Wisting e respectivo namorado como empecilhos. A sensação de déjà vu é atenuada pela escrita limpa de Horst. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

MICHEL BUTOR 1926-2016


Morreu Michel Butor, figura de proa do Nouveau Roman, sobretudo desde a publicação de La Modification (1957). Além de romances, Butor escreveu poesia, textos experimentais, ensaios e crítica de Arte. Entre outros, traduziu Hölderlin e Shakespeare. Tinha 89 anos.

EUROPA 2016

Merkel, Hollande e Renzi, o anfitrião, reuniram-se anteontem a bordo do porta-aviões Giuseppe Garibaldi, que por acaso participa neste momento numa operação naval da NATO em curso no Mediterrâneo. Unir a Europa pós-Brexit foi o móbil das três grandes potências económicas da UE. Tudo se passou ao largo da ilha de Ventotene, onde, em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Ernesto Rossi e Altiero Spinelli, dois intelectuais antifascistas, redigiram um manifesto sobre os benefícios futuros de uma Europa federada. No momento actual, a mise-en-scène teve o efeito contrário.

O nó górdio parece residir na acumulação, cada vez mais evidente, de sinais de implosão da Ucrânia, um tema que parecia adormecido. Mas nos círculos diplomáticos e da intelligence militar comenta-se em voz alta uma invasão russa em larga escala, ainda este ano. Isso mudou tudo. Neste preciso momento, o Governo Alemão prepara-se para aprovar um pacote de defesa civil, com directivas à população que incluem racionamento alimentar e de energia, além de medidas concretas a que ficarão obrigados os hospitais, os serviços públicos e as empresas privadas (sobretudo no tocante à reconstrução de infraestruturas vitais que tenham de ser reconstruídas), uns e outros sob supervisão do ministério do Interior e das Bundeswehr, ou seja, as Forças Armadas. A eventual reintrodução do serviço militar obrigatório está em cima da mesa de Merkel. Por vontade de Thomas de Maizière, o ministro do Interior, começava hoje.

O ‘pacote’ constitui mera prevenção? Se é assim, chega tarde. O ponto é saber se o receio vem de uma guerra na Europa, ou da possibilidade de uma vaga de ataques terroristas contra centrais nucleares alemãs, redes de transportes, sistemas de distribuição de água, gás e electricidade, etc., sem excluir o terrorismo cibernético, o qual afectaria todos estes sectores.

Aguardar para ver.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

JOGOS DO RIO

Acabaram os jogos do Rio. Não vi. Ocasionais zappings nunca apanhavam as provas que vejo com agrado: ginástica, hipismo, esgrima, salto com vara, natação (o resto não me interessa). Soube hoje que Telma Monteiro conseguiu uma medalha de bronze numa prova de judo. E que uma atleta americana competiu com hijab. Apesar de todas as profecias, o Rio não se portou mal. O sistema de saneamento da Barra da Tijuca está entupido com dezenas de milhares de preservativos, mas isso é moleza.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DISCURSO DIRECTO, 42

Valter Hugo Mãe em entrevista ao Diário de Notícias, hoje:

«Que eu saiba, fui o único escritor que assinou uma petição para se exigir que a escola pública fosse defendida em detrimento dos colégios privados... »

Errado. Outros escritores assinaram. Fui um deles. O busílis é que os jornais, na impossibilidade de citarem cem ou duzentos nomes, citam os três ou quatro que na cabecita do repórter de serviço são... ‘os famosos’. Sou amigo do Valter há dezoito anos, acredito que ele não o tenha dito por fanfarronice, mas o seu a seu dono.

A CAIXA

O affaire Caixa Geral de Depósitos atingiu o paroxismo. Meses de avanços e recuos desde que António Domingues, o novo CEO, impôs uma administração de 19 membros (sete executivos e os restantes não-executivos), culminaram ontem na bizarra decisão do Banco Central Europeu, que rejeitou 8 dos 19 membros propostos, alegando, nos termos da Lei portuguesa, que a sua presença em órgãos sociais de outras empresas excede o limite legal. A Lei nunca terá sido cumprida, mas foi o BCE que a trouxe à colação. O Governo prepara-se para a alterar, e não o devia fazer. As personalidades rejeitadas devem bater com a porta, deixando claro que não precisam da CGD para nada. O BCE também não aprova a acumulação dos cargos de Chairman e CEO, como pretende António Domingues, e só o permitirá durante um período transitório de seis meses. Cereja em cima do bolo, o BCE obriga três administradores a frequentarem o curso de gestão bancária estratégica do INSEAD (a escola de elite em Fontainebleau), forma peremptória de dizer que não confia nas suas capacidades profissionais actuais. Vão aceitar a humilhação? Se aceitarem, quem paga o curso? O BCE, que o impõe? O BPI, de onde são oriundos? A CGD, que é sustentada com os nossos impostos? Os visados não são com certeza. Tudo isto é lamentável, e perigoso, porque se trata de uma tarantela em cima de um buraco superior a cinco mil milhões de euros.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

TRUMAN CAPOTE


Hoje na Sábado escrevo sobre A Sangue-Frio, a obra-prima de Truman Capote (1924-1984) que está de volta às livrarias cinquenta anos após a sua publicação. Aquilo que podia ser uma mera reportagem, como outras que se publicaram no ano do crime, transformou-se num romance de não-ficção, uma contradição nos termos. Capote ficcionou algumas passagens da tragédia de Holcomb mas, no essencial, o livro respeita o guião da matança de 1959, ou seja, o bárbaro assassinato de Herbert Clutter, um rico fazendeiro metodista, sua mulher, a filha de 16 anos e o filho de 15. O autor transferiu-se de Nova Iorque para o Kansas, onde, além de entrevistar polícias e habitantes da localidade, privou na cadeia com Perry Smith e Richard Hickock, os assassinos, executados por enforcamento em Abril de 1965. Em 1966, quando saiu A Sangue-Frio, Capote tinha já publicado uma dúzia de livros, entre eles duas obras que fizeram dele uma referência da ficção americana do século XX: Outras Vozes, Outros Lugares (1948) e A Harpa de Ervas (1951). O relato da matança de Holcomb operou uma guinada na escrita do autor, ao mesmo tempo que deu azo a uma série de rumores nunca devidamente esclarecidos, como por exemplo o grau de intimidade a que Capote teria chegado com Perry Smith durante os encontros na cadeia. O ambicionado e esperado Pulitzer não caiu no seu colo alegadamente pelas conjecturas em torno da natureza dessas relações. O livro segue o protocolo de uma reportagem, atendo-se aos factos sem curar de os “polir” literariamente. Os protagonistas são Smith e Hickock, os matadores. O perfil de ambos é descrito com minúcia e, pode-se dizer, empatia, embora a investigação policial (e subsequente julgamento) não seja descurada. Por seu turno, o retrato de Mr. Clutter não podia ser mais impressivo. Capote levou seis anos a dar o livro à estampa, mas o resultado é uma obra de culto, um clássico da ficção de língua inglesa. A história serviu de base a documentários, séries de televisão e três filmes, sendo os mais conhecidos Capote (2005), de Bennett Miller, e Infamous (2006) de Douglas McGrath, indiscutivelmente o melhor de todos. Cinco estrelas.

Escrevo ainda sobre Moonlight Mile/A Última Causa, do americano Dennis Lehane (n. 1965). Com vários livros publicados em Portugal, entre eles a obra-prima Mystic River, que Clint Eastwood levou ao cinema, o autor privilegia os temas associados às famílias disfuncionais. Os seus thrillers distinguem-se pela minuciosa radiografia da criminalidade em contexto de sociedade pós-industrial. A escrita ágil faz o resto. Moonlight Mile, agora traduzido, encerra a série dos detectives Patrick Kenzie e Angie Gennaro. Dos seis títulos que a compõem, apenas Sacred continua inédito em português. Quem leu Gone, Baby, Gone (1998), verifica logo que Moonlight Mile é uma sequela desse romance. Estamos de novo em Boston, local de eleição do autor. Patrick e Angie são agora casados e pais de uma criança, facto que os leva a encarar o segundo desaparecimento de Amanda McCready como algo que lhes diz duplamente respeito. Amanda já não tem quatro anos, tem dezasseis. O desenlace da investigação anterior deixou-os de rastos: a rapariguinha foi encontrada, mas devolvida a um lar de risco. É preciso de impedir que aconteça de novo. Factor decisivo: em doze anos, o mundo é outro. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

MAGUEIJO

Muito boa a entrevista de João Magueijo hoje publicada no Diário de Notícias. Não sei se o entrevistador deu por isso, mas, por duas ou três vezes, o professor do Imperial College de Londres responde num tom equivalente a «não seja parvo». Lembrar que João Magueijo, português radicado há mais de vinte anos no Reino Unido, 48 anos, físico, autor da teoria da velocidade da luz variável, é um dos mais eminentes cientistas vivos, como tal reconhecido na comunidade internacional.

Além de obras sobre ciência, publicou há dois anos o controverso Bifes Mal Passados, sobre o qual escrevi em 25-9-2014 na revista Sábado. No livro, Magueijo não deixa pedra sobre pedra acerca de como vê o Reino Unido: a hierarquia de classes, os sotaques, as public schools, o clima, os motins raciais, o sexo, o desporto, as férias, os animais domésticos, a alimentação, o álcool (as páginas sobre Gales são eloquentes), a religião, as idiossincrasias académicas, a “indústria financeira”, a síndrome pós-colonial, etc.

Voltando à entrevista: a caixa de comentários do jornal é o espelho do país ressabiado em que vivemos. Uma vergonha.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

DUODÉCIMOS

Dizem os media que o OE 2017 vai manter o pagamento em duodécimos do subsídio de Natal aos funcionários públicos e pensionistas. Nem pode deixar de ser assim enquanto a carga fiscal obedecer à Tabela Gaspar (OE 2012). Em cada mês, o duodécimo amortece a extorsão do IRS. No dia em que o duodécimo deixar de existir, a larga maioria de funcionários públicos e pensionistas tem um rombo no seu rendimento mensal líquido, de pouco lhe servindo a certeza de que em Novembro recebe um salário extra. Como não acredito num choque fiscal que reponha o IRS nos valores de 2010, estou em crer que os duodécimos vão eternizar-se. Os trabalhadores do sector privado cujos patrões não acataram a norma dos duodécimos, têm emoldurados os recibos dos salários de Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012, para nunca esquecerem que houve um antes e um depois de Vítor Gaspar.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

FALÁCIA

Cessaram ontem as soi disant ‘fidelizações’ com as operadoras de telecomunicações. A partir de hoje, as empresas têm de efectuar contratos sem qualquer tipo de fidelização ou, em alternativa, com fidelização nunca superior a doze meses (existe a opção seis meses). Por seu turno, a alteração do pacote de serviços não implica prorrogação da fidelização anterior. Isto é tudo muito bonito. Mas quer-me parecer que é gato escondido com rabo de fora. Um exemplo: para desactivar o serviço de alguém que decide passar do operador X para o operador Y, o operador X pode, nos termos da nova legislação, cobrar custos (com equipamento, instalação, equipas), desde que o valor desse custo não exceda o remanescente das mensalidades contratadas. Dito de outro modo: a cessação do contrato tem um preço que pode ser igual ao pagamento das mensalidades caducadas ontem. Uma falácia! 

Sempre recusei ‘fidelizações’. Por isso pago 80 euros por mês por um pacote de televisão mais internet mais telefone fixo. O telemóvel não entra.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

PORQUÊ?


Dalian Atkinson, 48 anos, antigo jogador de futebol do Aston Villa, do Sheffield Wednesday e do Ipswich Town, foi hoje morto pela polícia inglesa com uma descarga de taser. Atkinson, que tinha ido visitar o pai, teve uma paragem cardíaca após ser atingido pelo taser. Estão por apurar as causas.

Imagem do Guardian. Clique.

domingo, 14 de agosto de 2016

BARBÁRIE


Impressionante esta reportagem publicada ontem no Observer sobre abuso sexual de crianças em campos de refugiados na Grécia, em especial o de Salónica. Clique na imagem.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

MIGUEL CARDOSO


Hoje na Sábado escrevo sobre Víveres, de Miguel Cardoso (n. 1976). Desde Adília Lopes, que irrompeu na cena literária em 1985, nunca um poeta foi tão assertivo como Miguel Cardoso. Claro que o intervalo que vai de Adília até hoje não é um deserto: Rui Cóias, João Luís Barreto Guimarães, José Miguel Silva e António Carlos Cortez, aqui citados por ano de nascimento (seriam elegíveis mais um ou dois), “prolongaram”, cada um a seu modo, a melhor genealogia. O facto é que Cardoso, para além de prolongar, acrescenta. Víveres é um livro composto por seis sequências de poemas, fechando com um curioso Anexo Documental. Digamos que o autor traz com ele a respiração (se preferirem: a prosódia) dos que são obrigados a viver vários patamares abaixo daquele em que nasceram. Dito de outro modo, a mobilidade social de pernas para o ar — «e a promessa de minas d’oiro / é uma declaração de guerra» ou, de forma menos elíptica, «A fome volta e então como é difícil cantar […] O quanto custa imaginar entradas e saídas. / Cá andamos em voltas entre os nossos inimigos.» Imprescindível. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre a nova tradução de Crash, do britânico J. G. Ballard (1930-2009). Os primeiros anos da vida do autor deram origem a um filme célebre, O Império do Sol, que Spielberg realizou em 1987 após a adaptação que Tom Stoppard fez do romance homónimo. Nessa altura muita gente descobriu Ballard, que já então tinha publicado dez romances e catorze colectâneas de contos, núcleo a que pertencem algumas das suas obras mais consistentes. Mas o vasto mundo comoveu-se com a história do rapazinho à deriva sob o bombardeamento de Xangai. Foi ali que Ballard nasceu, porque era lá que os pais viviam e trabalhavam. Durante a ocupação japonesa, a família foi internada num campo de concentração até ao fim da guerra. O recorte autobiográfico de O Império do Sol faz dele o seu único romance convencional. Tudo o resto tem carácter distópico. Muitos títulos antecipam um universo caótico: Cataclismo Solar (1962) e Noites de Cocaína (1996), para dar exemplos com edição portuguesa, são obras emblemáticas. Agora, Crash (1973) regressou às livrarias. Nas palavras do autor, «o livro tem um papel político para além do seu conteúdo sexual, mas prefiro encarar Crash como o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia.» O foco central é a symphorophilia, ou seja, a parafilia que faz do desastre o objecto do prazer: assistir, planear, provocar, participar em. Neste caso, desastres com automóveis. Um dos personagens, Robert Vaughan, pretende atingir o clímax fazendo embater o seu carro, de frente, com o de Elizabeth Taylor. De certo modo, o plot é o corolário dos contos premonitórios reunidos em Disaster Area (1967), embora Crash seja mais revolvente. As descrições gráficas dos actos sexuais praticados no interior dos automóveis em andamento não seriam plausíveis sem o alto conseguimento da escrita. Nesse particular, Ballard é inatacável. Podemos não gostar daquele magma de olhos vazados, membros decepados, gases, sangue, vomitado, fezes e sémen («a vibração dos vidros do carro desencandeou o meu orgasmo»), mas não ficamos indiferentes. Sem surpresa, o filme que Cronenberg fez em 1996 a partir do livro tornou-se uma obra de culto. As feministas leram Crash como um exercício falocrata, e talvez tenham razão. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

DISCURSO DIRECTO, 41

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, ontem na SIC.

«A Madeira não tem condições para utilizar meios aéreos no combate aos fogos. É preciso ter postos de abastecimento e isso não existe, mas é algo que o Governo Regional da Madeira poderá equacionar

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DISCURSO DIRECTO, 40

Bárbara Bulhosa entrevistada hoje pelo Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«[...] Esta nova geração de escritores não é assim tão extraordinária [...] Considero que os livros deveriam ser mais trabalhados antes de serem publicados e que os autores deveriam ter mais tempo para os rever e pensar. Um bom livro só o pode ser depois de muito maturado. [...] Está instalada uma máquina de fazer livros que tem muito pouco a ver com literatura. [...] Publico um livro quando acredito que tem leitores ou pertinência política ou social. Um editor é também um agente de divulgação cultural e política e quem disser o contrário não compreende o que faz. Vivemos em democracia e é preciso honrar a profissão. [...] Ao saírem 14 mil livros por ano, as livrarias estão sempre a receber novidades e a devolver os outros. O tempo de vida de um livro está em três semanas, um mês no máximo. [...] Não vejo grandes autores em Portugal que gostasse de editar. [...]»

Convém ler na íntegra. Ficamos a saber que a Tinta da China vai publicar Nelson Rodrigues, e nada me dá maior prazer.

BRASIL

Ontem, por 59 votos contra 21, o Senado deliberou passar Dilma de «suspensa de funções», como estava desde 12 de Maio, para «ré». A destituição definitiva deverá ocorrer no próximo dia 25.

UM NOVO CHIADO?


A situação que se vive no Funchal é dramática e faz lembrar o incêndio que arrasou o Chiado em Agosto de 1988. Até ao momento, três mortos confirmados e mil pessoas desalojadas de casas e hotéis. O centro histórico em chamas. Grande parte do Jardim Botânico destruído. António Costa alertou a UE e pediu ajuda à Rússia. A imagem de Gregório Cunha, para a Lusa, faz hoje a capa do Expresso, Público e Jornal de Notícias. Clique na imagem.

domingo, 7 de agosto de 2016

BERLIM, PARTE DOIS


No texto anterior faço um tour d’horizon objectivo, com raras apreciações de índole subjectiva. Hoje tentarei fazer diferente. Cinco dias não chegaram para conhecer Charlotenburg, Hansaviertel, Prenzalauer Berg e Wannsee. O início de Agosto é uma época sem ópera e concertos clássicos. A Deutsche Oper, uma das três da cidade, abre a temporada no próximo dia 28. Nada a fazer. O clima não é especialmente simpático: calor (26-28 graus, com ligeira descida a partir das dez da noite) e chuva intermitente. As obras entopem tudo, da Unter den Linden a Schloßplatz, passando pela St Hedwigs Kathedrale, bem como outras áreas menos nobres. Em Bebelplatz, defronte do Hotel de Rome, vimos um grupo de meia centena de rapazes e raparigas deitados no chão, em aparente estado de meditação. Eram 11 da manhã. Estariam a reflectir sobre o auto-de-fé nazi de Maio de 1933, realizado ali mesmo?

A ilha dos museus é um estaleiro. O mesmo se diga do troço que vai da Universidade Humboldt ao local onde existiu o Palast der Republik, o parlamento da antiga RDA. Após um debate público de cerca de cinco anos, o edifício foi demolido em 2006. No seu lugar está a ser construído uma espécie de CCB, com inauguração prevista para 2019, que fará contraste violento com a esplêndida Berliner Dom, a catedral barroca do outro lado da avenida.

Como em qualquer grande cidade, andar de metro é muito prático, mas, neste caso, o idioma dificulta a vida a quem o desconhece. O táxi é uma alternativa cara mas eficiente. Exemplo: da Porta de Brandemburgo ao KaDaWe são 16 euros às quatro da tarde. Por falar em táxis: do Aeroporto de Schoenefeld à Porta de Brandemburgo, onde fica o Adlon, o nosso hotel, foram 50 euros à chegada e 40 à partida (outro trajecto), sem gorjeta. Schoenefeld é uma viagem ao passado, onde a cada metro tropeçamos nos fantasmas da antiga RDA. Não deixa por isso de ser eficiente.

As comparações são inevitáveis. Berlim é uma cidade monumental, mas é uma monumentalidade diferente de Paris ou Madrid. É uma grande cidade, mas num sentido diferente ao de Londres ou Nova Iorque. O turismo não é tão opressivo como em nenhuma destas cidades, ficando a milhas da esquizofrenia de Roma ou Veneza. A maior surpresa foi a pujança do comércio, em todas as gamas de preços. Sinal inequívoco de civilidade: as dezenas de vitrines nos passeios da Kurfürstendamm (a Kudamm), que terá qualquer coisa como quilómetro e meio, permanecem com o recheio ao longo da noite. E não estamos a falar de souvenirs para turista pobre. Vitrines Rolex, Ferragamo, etc., iluminadas às 11 da noite, seriam um convite ao assalto noutro tipo de civilização.

Checkpoint Charlie não tem glamour mas tem memória. A minha geração sente um arrepio quando ali chega, mas suspeito que aos mais novos (os que nasceram a partir de 1990) o local seja indiferente.

Pedaços do muro podem ser vistos em vários locais. Na Potsdamerplatz existem cinco ou seis blocos. E, na Friedrichstraße, o Westin Grand faz questão de ter um a decorar a esplanada do bar.

Em traços gerais foi assim que vi Berlim. Clique na imagem.

sábado, 6 de agosto de 2016

BERLIM, PARTE UM


Cinco dias em Berlim permitiram desfazer o enigma desta cidade inscrita a ferro e fogo na memória cultural e política da minha geração. Não basta conhecer os últimos cem anos de História, ter seguido a passo a literatura, o cinema e a memorabilia gay. Relatos avulsos de um punhado de amigos ajudam, mas é preciso ver e compreender. Tentarei alinhavar alguns tópicos. Berlim é uma cidade civilizada, limpa e, até prova em contrário, segura. Os berlinenses são educados e prestáveis. Nas principais avenidas, os passeios são muito largos, embora a cidade, ao fim de 27 anos de reunificação, continue a ser um imenso estaleiro. As zonas de fronteira entre Leste e Oeste foram rapidamente reconstruídas e ocupadas — como por exemplo toda área que vai de Potsdamer Platz à Porta de Brandemburgo —, com edifícios assinados pela nata da arquitectura mundial, mas o interior dos bairros só agora está a ser afinado. Sirva de exemplo a majestosa Unter den Linden, o equivalente local dos Champs Élysées. Fiquei instalado no seu topo, no mítico Adlon Kempinski, a dois minutos da Porta de Brandemburgo. O hotel teve uma primeira vida, de 1907 a 1945, mas foi totalmente destruído pelos Aliados. Em 1997, oito anos após a queda do Muro, a família Kempinski reconstruiu o edifício. Por lá passou toda a gente (realeza e plebeus) que foi alguém: era o pouso preferido de Thomas Mann. Gostei francamente de lá ter ficado hospedado. O Adlon ocupa um terço de um quarteirão, estando o espaço que sobra ocupado, a Leste, pela embaixada britânica, e a oeste pela embaixada americana. No mesmo quarteirão, virado à Pariser Platz, resta ainda um nicho para o DZ Bank, obra de Frank Gehry, e para a simpática Akademie der Künste, de arte contemporânea. A rua da embaixada britânica, a Wilhelmstraße, está cortada ao trânsito automóvel entre Unter den Linden e Behrenstraße.

Berlim é uma cidade cara. Verdade que a variação de preços acompanha a passagem de um bairro para outro. Em Mitte, a zona envolvente do Adlon, tudo é caríssimo. Mas em Kreuzberg, zona multicultural frequentada por turistas com preocupações de natureza intelectual, a diferença é residual. Exemplo: em Mitte, uma bica custa três euros, num café de rua gerido por turcos antipáticos; em Kreuzberg custa 2,5 euros num café com WiFi gerido por rapazinhos louros de pele de pêssego e simpatia desarmante.

Quase todos os hotéis de prestígio estão concentrados em Unter den Linden, Behrenstraße e Friedrichstraße. As zonas comerciais por excelência são a Friedrichstraße e a Kurfürstendamm, vulgo Kudamm. Em ambas, a primeira no antigo Leste, a segunda no antigo sector americano, existem centros comerciais homéricos, além de lojas elegantes das marcas mais reputadas: Cartier, Prada, Kors, etc. Na Friedrichstraße ficam os concorridos Quartier 205-6-7. O 206 é obra do chinês Pei, o da pirâmide do Louvre. Atrás do Quartier 206 fica a Gendarmenmarkt, uma praça agradável, onde está o Konzerthaus, com a estátua de Schiller em frente, e as igrejas alemã e francesa. O Quartier 207 são as Galerias Lafayette, obra do francês Jean Nouvel. A Kudamm é magnífica: comércio, cafés, restaurantes, bares, hotéis populares, uma babilónia étnica. O Reinhard’s é o equivalente de Les Deux Magots. Tomar um chá ou um drink na esplanada é ver passar o mundo. Um chá custa entre 6 e 9 euros. Muitos rapazes morenos com a braguilha ostensivamente aberta, o que pressupõe outro tipo de comércio. O Reinhard’s fica na esquina da Fasanenstrasse, uma rua cheia de galerias de arte e pequenas lojas especializadas: arte déco, antiquários, livrarias, lentes zeiss, etc. Também ali está a discreta Literaturhaus, com uma boa livraria e um bonito jardim de rosas onde se pode almoçar.

Num dos topos da Kudamm, logo a seguir à Igreja da Memória, começa a Tauentzienstraße, onde fica o famoso KaDaWe, um Corte Inglês a multiplicar por dez. As secções gourmet do sexto piso são superlativas.

Para os amantes de arquitectura em altura, a Potsdamerplatz é o sítio ideal: arranha-céus tipo Manhattan, o Ritz-Carlton (o bar é excelente, mas dois whiskies custam 48 euros), o Sony Center com a sua gigantesca cúpula em aço, etc. A Filarmonia fica a dois passos, mas só reabre no próximo dia 26. E também a Gemäldegalerie, um bom museu com arte europeia dos séculos XV a XVIII. Uma das secções do Muro passava na Potsdamerplatz. Fazendo a pé o trajecto até à Porta de Brandemburgo, podem ver-se fotos de como era no antigamente. Fica aí o Memorial do Holocausto, também conhecido por Memorial aos Judeus Mortos da Europa, projectado por Peter Eisenman e inaugurado em 2005. Ocupa uma área de cerca de vinte mil metros quadrados. Há muitos memoriais em Berlim: aos homossexuais vítimas do regime nazi, aos deputados comunistas e socialistas assassinados a seguir ao incêndio do Reichstag, aos ciganos, etc. A memória é um ferrete.

No cimo do Bundestag fica a famosa cúpula em vidro de Norman Foster. Com pena, não fui visitar. As reservas pela Internet estavam bloqueadas para as próximas semanas e a possibilidade de fazer uma marcação in loco implicava ficar duas horas numa fila. Fora de questão.

Preferi ir para a ilha dos museus, que são cinco. A saber: o Altes Museum, com antiguidade grega, romana e etrusca; a Alte Nationalgalerie, com impressionismo alemão e francês; o Pergamon, com monumentos da antiguidade; o Neues Museum, recuperado recentemente por Chipperfield, onde podemos ver a cabeça de Nefertiti e réplicas do tesouro de Tróia que os russos levaram no fim da guerra; e o Bode Museum, com peças Alta Idade Média. Não fomos ao Pergamon porque era preciso comprar o ingresso (extra-passe) noutro contentor, e os 40 minutos gastos no contentor anterior chegaram e bastaram. A zona está toda em obras. Ao lado da ilha fica o Museu de História Alemã, muitíssimo bom. A parte menos interessante é uma escada em caracol desenhada pelo omnipresente Pei. Como digo, o museu é óptimo, mas a cafetaria não tem nada do que vem na lista. Nada. Não era por ter acabado, o empregado explicou que a lista tem anos e nunca foi mudada. No caminho para a ilha dos museus passei pela Dussmann, uma livraria magnífica em Friedrichstraße.

A grande decepção foi Alexanderplatz, uma espécie de Martim Moniz em dobro. A torre de televisão da antiga RDA fica quase colada. Nenhum interesse. Não houve tempo para visitar Prenzlauer Berg, antigo bairro proletário hoje ocupado por yuppies.

Acerca de restaurantes. As surpresas mais agradáveis foram a Ganymed Brasserie (Schiffbauerdamm, 5), consta que a preferida da senhora Merkel, o Borchardt (Französische Straße, 47), o Grosz (Kurfuerstendamm, 193) e o Pauly Saal (Auguststraße, 11). O Gendarmerie (Behrenstraße, 42) vale pela decoração e atmosfera cool. Aparentemente, tem o maior mural de madeira do mundo, pintura neo-expressionista de Jean-Yves Klein. O staff é simpático mas a comida é medíocre. A grande decepção foi a Enoiteca Il Calice (Walter Benjamin Platz, 4), onde tudo é pretensioso, a começar pela morada. Com excepção do Borchardt e do Grosz, que têm preços sensatos, os equivalentes dos restantes cobram em Lisboa menos 40%.

Continua. A imagem mostra a torre de televisão da antiga RDA. Clique.